A vida pulsando na poesia de Misael Nóbrega.
Acredito que leitura de poesia é sempre uma ação continuada. Um bom livro de poemas é uma leitura infinita. Aprende-se a ler em cada poema. Certamente a literatura em todas as suas formas nos impulsiona para esse aprendizado. A leitura literária é um exercício de permanências. Não por acaso Roland Barthes escreveu no livro “A aula” que “a literatura contém muitos saberes”.
Sempre que leio um poeta pela primeira vez, naturalmente, vou
construindo pontes com leituras antigas e atuais. Não chega a ser um método pois
se trata de um ato intuitivo. Talvez seja um hábito, quase um sestro de leitura.
Algo que não saberia explicar pois se insere na maré das epifanias. Delírios arrancados
de algumas prosas raras, poemas contundentes ou até mesmo de alguns ensaios.
No caso deste livro (“Sós”), lembrei de uma frase icônica do escritor
caribenho Patrick Chamoiseau. Natural da Martinica e um dos expoentes da
literatura caribenha, Patrick me ajudou a encontrar o prumo na leitura deste
bom livro do poeta paraibano Misael Nóbrega. “No estado poético, produz-se o
famoso feitiço do detalhe e do todo”, diz Chamoiseau no livro “O contador, a
noite e o balaio”. Um ensaio que aproxima a poesia e a literatura de um modo
geral, da ancestralidade.
Na leitura dos poemas de Misael encontrei o escritor, mas de
certa forma também o leitor. Especialmente aquele leitor dos livros e do mundo,
como indica Paulo Freire. Misael nos mostra o quanto é o modo de ler o mundo e
os livros que impulsiona os mergulhos mais profundos. Na geografia do poema
cabem rios e cordilheiras. Os horizontes se alastram entre calmarias e
tempestades.
A leitura dos poemas de Misael Nóbrega ensina de imediato que
o olhar para dentro abre janelas e nos ensina a olhar para fora. Eis o “feitiço
do detalhe”. Eis aqui um mestre na arte de debulhar detalhes e soltar todas as
âncoras na transversalidade. Seus poemas conversam silenciosamente entre si. Há
uma profunda relação com a vida e com a turbulenta mestiçagem cultural contemporânea.
Ele cria o espaço adequado para um certo telurismo e, ao
mesmo tempo, propõe versos que se comunicam naturalmente com o universo. É daí
que nasce a esgrima haicaística dos seus tercetos. É como se o Mamulengo e o
boneco Daruma habitassem a mesma cena em poemas que se relacionam de forma
complementar. Simultaneamente é como se o livro todo fosse um épico
minimalista. Uma epopeia de retalhos constituídos no mesmo tecido.
Penso que é exatamente essa profusão temática que permite ao
poeta abordar as questões sociais, sempre tão intrincadas no lirismo cotidiano.
Sua poesia é definida na alça de mira da sensibilidade. Fala de amor, de
silêncio, de memória. Misael chega com vigor neste cenário de transbordamento
editorial que cerca a poesia brasileira. Uma poesia que elege suas perspectivas
num balaio de forma e conteúdo. Do primeiro ao último poema o que se vê é um
monolito de significados.
Por exemplo, o futebol enquanto metáfora da vida no poema “A
bola do mundo”. As ambiguidades do tempo que são apresentadas como uma espécie
de mapa antropológico dos seus versos. Cabe
aí a legitimação do sotaque oriental derramado em tercetos bem formulados. Como
no poema “A esmo”: “o dia cai/ eu nem vejo/ tolo, admiro”. É como se os
monumentos do acaso fossem despindo a pele da palavra escrita.
A perplexidade diante do mundo e o aspecto psicológico tatuado
na tessitura do verso. Assim Misael expõe uma poética da observação. Na
verdade, são os simbolismos do cotidiano que determinam o equilíbrio entre a unidade
e a diversidade temática da sua poesia. Sentimos isso no poema “A porta” que aqui
destacamos em sua última estrofe: “Entre o medo e o necessário/ em toda porta
está escrito/ o número da vez.”
É mais ou menos o que Jacques Ranciere sugere no livro “A
partilha do sensível – estética e política: a abolição de um conjunto ordenado
de relações entre o visível e o dizível, o saber e a ação, a atividade e a
passividade.” A exemplo do poema “A República”, onde o poeta desnuda a
realidade social institucionalmente constituída e tão corroída em nosso país.
O olhar atento do poeta sobre a sociedade contemporânea, no
entanto, não para por aí. Ele abstrai as particularidades para efetivar a
amplitude do verso. Encontramos essa singularidade tatuada também em poemas
como “A sina: A menina na esquina.../ ‘é uma perdida!’/ (atiravam-lhe pedras)/ Vieram/
feios./ Vieram/ outros/ Não/ uma rendição/ à sina/ A menina,/ de pernas
abertas.../ ...um pedido de socorro”. Vejo aí uma passagem um tanto ocasional de
Maupassant, especialmente no conto “Bola de Sebo”.
Poemas como “A beleza”, por exemplo, buscam no corte de cada
verso apontar o seu oposto. Um combo de conceitos que existem em cada palavra e
que vão sendo tragados pela sua expressão poética. Em outros poemas também
vamos encontrar as medidas do abismo e do raso, do espanto e da serenidade.
Coisa de quem olha para o invisível sem medo do que irá encontrar.
Observo que este livro possui uma unidade estabelecida nas
fórmulas que o poeta encontrou para escrever seus versos. Predominam os poemas
curtos. Ele parece perseguir uma busca ao mesmo tempo objetiva e arriscada.
Falo da economia rigorosa e vocábulos: “o máximo de canto no mínimo de corpo”.
De certa forma podemos perceber alguns dos artifícios do
neobarroco brasileiro que identifica parte da nossa poesia reconhecida pelos
riscos de invenção permanente. Décio Pignatari, por exemplo via a poesia para
além da literatura. “Um tipo de artes plásticas”, dizia o concretista. O fato é
que há consistência real nos poemas de Misael Nóbrega. Eis o que nos interessa
de fato nesta breve abordagem.
Em última análise, destaco mais essa boa publicação da
Editora Arribaçã que avança e conquista respeitabilidade através do olhar
atento e cuidadoso do poeta e editor Linaldo Guedes. A Arribaçã tem dado uma
contribuição fundamental na mineração permanente que é a pesquisa, a busca pela
diversidade e pela novidade na poesia contemporânea. Eis aqui mais um livro que
afirma a boa literatura paraibana no cenário brasileiro atual e na história da
Poesia da terra de Augusto dos Anjos.
Lau
Siqueira
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