A imersão de Carlos Gurgel no caos da existência.
“Todo poema é basicamente uma estrutura sonora.” Esta frase do Antônio Candido define, em linhas gerais, a espinha dorsal do último livro do poeta potiguar Carlos Gurgel. Uma obra preciosa e complexa, delicada e explosiva. Uma verdadeira tempestade de significados. Um livro imprescindível para compreendermos que a poesia brasileira contemporânea é um território de inconstâncias.
O “Escambo do Caos”, publicado em 2025 pela Editora Sol Negro
é uma sequência de boas escolhas. Poemas arrancados das sombras. Do território
necessário ao exercício da poesia enquanto razão de existir do poeta. Lembra muito
T. S. Eliot no livro “O uso da poesia e o uso da crítica”, onde ele diz que “a
existência do poema está em algum lugar entre o escritor e o leitor”.
Não por acaso a presença de três grandes leitores da poesia complementam
a obra. Textos de Claudio Daniel, Astier Basílio e Alípio de Sousa Filho ajudam
a localizar a voz contundente e provocadora do poeta. Para completar a escalada
somos atravessados pela arte provocadora de Paulo Sayeg. Desenhos que derramam
sobre nossos olhos os desconcertos da existência alinhavados aos versos de
Carlos Gurgel.
Astier Basílio em um dos textos que analisam o livro, foi
bastante cirúrgico. Para ele, os poemas de Carlos Gurgel gritam e exigem uma
leitura em voz alta. Já Alípio de Sousa Filho compreende que esses mesmos poemas
nos carregam para um ponto de combustão. Cláudio Daniel também atesta a
densidade dos poemas. Destaca a unidade
estética como sequências de um mesmo poema. Essa unidade podemos observar a partir
da estrutura sonora de cada poema.
Carlos Gurgel há muito surgiu na cena brasileira como um
poeta de fundamentos estabelecidos. Com formação em artes cênicas na UFRN,
consolida o poema enquanto artefato de linguagem. Algo nascido, sangrado,
berrado com a estridência das coisas que rebentam todas as dimensões do
silêncio. Em cada verso o poeta tange sua inquietude com precisão. Sua poesia é
rock e é blues, é grito e é silêncio. Se mistura naturalmente no ambiente da
leitura e vai ocupando os espaços.
No poema “milímetro” (pg. 26), o poeta diz com todas as
palavras que não se permite desviar das suas fragilidades. Ele é dono da voz rigorosa
que submete as palavras aos arremessos da sua sensibilidade: “eu não sou pedra/
sou carne e osso/ e tudo que flutua/ eu ouço”. Talvez seja esta a minha
primeira indicação para a leitura desses poemas que nos tiram do lugar. Poemas
que deslocam o eu lírico para uma troca furiosa com o leitor ou a leitora.
Gurgel nos arrasta para dentro dos seus pesadelos até
libertar-se e libertar-nos com versos compulsórios. Como no poema “entorpecente”
que vai ser encontrado na página 82: “a gente tem uma mania safada/ de carregar
o passado com a gente”/ e isso
atrapalha/ como uma malha que agasalha tudo que/ passou”. Este é um dos poemas entre
muitos que podemos também apontar. São versos que delatam o caos em que estamos
mergulhados. Lugares onde já não podemos nos esconder de nós mesmos.
São poemas cravados na veia. Como um espinho invisível que se
espalha pelas artérias provocando efeitos imediatos. Algo que nos arranca da
leitura silenciosa, sem muralhas protetoras, sem máscaras e sem tempo de
espera. Como escreveu Antônio Cícero, “para apreciar um poema é preciso
dedicar-lhe tempo”. Para isso, a leitura de “Escambo do Caos”, nos oferece uma
superfície inclinada, uma percepção não linear das infinitudes, aliás como todo
bom livro de poemas.
Carlos Gurgel nos coloca diante do espelho. E ao ler seus
poemas, naturalmente escorregamos para os desenhos de Paulo Sayeg. Ambos se
completam. Como se a angústia desenhada nas palavras do poeta colhesse a razão de
uma leitura que, segundo o poeta Cláudio Daniel, é uma “máquina de produzir
estranhezas”. Um livro para ser lido sem medo dos gritos terrificantes que nos
oferece por sermos exatamente o que somos.

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